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90% de tudo é lixo: Lei de Sturgeon

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Faça menos: por que produzir mais nem sempre significa produzir melhor

Vivemos em uma época em que somos constantemente incentivados a fazer mais.

Mais conteúdo. Mais reuniões. Mais projetos. Mais posts. Mais ferramentas. Mais ideias. Mais produtividade.

Mas existe uma pergunta que talvez seja mais importante:

E se o problema não for fazer pouco, mas fazer coisas demais?

A chamada Lei de Sturgeon, atribuída ao escritor de ficção científica Theodore Sturgeon, apresenta essa ideia de maneira provocadora:

“90% de tudo é lixo.”

A frase pode parecer pessimista ou até ofensiva. Mas sua intenção é justamente provocar uma mudança de perspectiva: em praticamente qualquer área da atividade humana, uma grande parte daquilo que produzimos é medíocre, irrelevante ou simplesmente não funciona.

O verdadeiro desafio, portanto, não é produzir cada vez mais.

É identificar o que merece nossa atenção e concentrar esforços nisso.


90% de tudo é lixo

Theodore Sturgeon formulou sua famosa observação como resposta às críticas dirigidas à ficção científica. Na época, era comum que críticos apontassem que a maior parte das obras do gênero era ruim.

A resposta de Sturgeon foi, em essência: isso também acontece em qualquer outra área.

A literatura produz livros ruins. O cinema produz filmes ruins. A música produz músicas esquecíveis. A publicidade produz campanhas medíocres. A internet produz uma quantidade quase infinita de conteúdo sem valor.

Isso não significa que essas áreas sejam ruins.

Significa que, em meio a uma enorme quantidade de produção, existe uma parcela relativamente pequena que realmente se destaca.

Essa ideia é particularmente importante hoje.

Com ferramentas digitais e inteligência artificial, ficou muito mais barato produzir praticamente qualquer coisa. Podemos gerar textos, imagens, vídeos, apresentações, anúncios e ideias em uma velocidade que seria inimaginável algumas décadas atrás.

O resultado é mais produção — mas não necessariamente mais qualidade.

Quando produzir se torna fácil, selecionar passa a ser difícil.


O princípio de Pareto: nem tudo tem o mesmo peso

Uma ideia semelhante aparece no Princípio de Pareto, associado ao economista italiano Vilfredo Pareto.

Ele ficou conhecido pela relação:

“80% dos resultados vêm de 20% das causas.”

A proporção 80/20 não precisa ser matematicamente exata em todas as situações. O ponto fundamental é outro:

os resultados normalmente não estão distribuídos de maneira uniforme.

Algumas ações produzem resultados muito maiores do que outras.

Em uma empresa, por exemplo, talvez:

  • 20% dos clientes representem 80% do faturamento;
  • 20% dos produtos gerem 80% das vendas;
  • 20% dos problemas provoquem 80% das reclamações;
  • 20% das atividades sejam responsáveis pela maior parte dos resultados.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado à nossa rotina.

Talvez uma pequena parcela das tarefas que realizamos seja realmente responsável pela maior parte do progresso.

E isso cria uma pergunta poderosa:

Quais são os meus 20%?


Fazer menos não significa trabalhar menos

Essa distinção é importante.

“Fazer menos” não significa necessariamente ser preguiçoso, trabalhar menos horas ou reduzir a ambição.

Significa eliminar aquilo que consome recursos sem produzir resultados proporcionais.

Existe uma diferença enorme entre:

trabalhar muito

e

trabalhar naquilo que importa.

Uma pessoa pode passar dez horas por dia ocupada e, ainda assim, avançar muito pouco.

Outra pode eliminar atividades secundárias, concentrar-se em poucas prioridades e produzir um resultado significativamente melhor.

A questão não é apenas produtividade.

É alocação de atenção.


E se os erros também fizerem parte do processo?

É aqui que entra outra frase famosa, atribuída a Thomas Edison:

“Não falhei. Apenas encontrei 10.000 maneiras que não funcionam.”

Independentemente da forma exata como a frase foi registrada ou transmitida ao longo do tempo, a ideia é extremamente útil.

Experimentar significa aceitar que parte das tentativas não dará certo.

Isso não é necessariamente desperdício.

É informação.

Um experimento que fracassa pode eliminar uma hipótese, revelar uma limitação ou mostrar um caminho que deve ser evitado.

O problema não está em errar.

O problema está em repetir o mesmo erro sem aprender nada com ele.


Experimentação é um jogo de tentativa, erro e aprendizado

Quando combinamos as três ideias — Sturgeon, Pareto e Edison — surge uma visão bastante interessante sobre produtividade e inovação.

Sturgeon: grande parte do que produzimos não terá grande valor.

Pareto: uma pequena parte das nossas ações tende a gerar uma parcela desproporcional dos resultados.

Edison: algumas tentativas inevitavelmente não funcionarão, e podemos aprender com elas.

O resultado é quase uma filosofia de trabalho:

Produza. Teste. Elimine. Aprenda. Concentre-se. Repita.

Não é necessário acertar de primeira.

É necessário criar um processo que permita descobrir rapidamente o que funciona e o que não funciona.


O perigo de tentar fazer tudo

Existe uma armadilha especialmente comum no ambiente digital: confundir possibilidade com necessidade.

Hoje podemos:

  • estar em todas as redes sociais;
  • produzir vídeos diariamente;
  • manter um blog;
  • criar newsletters;
  • fazer podcasts;
  • desenvolver aplicativos;
  • criar campanhas;
  • acompanhar dezenas de métricas;
  • testar centenas de ferramentas;
  • responder imediatamente a todas as mensagens.

Mas o fato de podermos fazer tudo isso não significa que devemos.

Cada nova atividade acrescenta um custo:

tempo + atenção + energia + complexidade.

E existe um custo adicional que costuma ser ignorado: o custo da dispersão.

Quanto mais coisas disputam nossa atenção, menor tende a ser nossa capacidade de concentrar energia naquilo que realmente importa.


A inteligência está também em eliminar

Existe uma tendência de associar inteligência à capacidade de criar.

Criar uma nova estratégia.

Criar um novo produto.

Criar uma nova campanha.

Criar uma nova funcionalidade.

Mas existe outra habilidade igualmente importante:

saber o que eliminar.

Eliminar uma reunião desnecessária.

Eliminar uma etapa burocrática.

Eliminar um produto que não funciona.

Eliminar um canal que não gera resultado.

Eliminar uma tarefa que pode ser automatizada.

Eliminar um projeto que perdeu sentido.

Eliminar informação que apenas gera ruído.

Em muitos casos, o próximo grande ganho de produtividade não está em adicionar alguma coisa.

Está em tirar alguma coisa do caminho.


A Lei de Sturgeon na era da inteligência artificial

Talvez essa ideia nunca tenha sido tão relevante quanto agora.

A inteligência artificial tornou a produção de conteúdo extremamente barata.

Uma pessoa pode gerar em poucos minutos aquilo que anteriormente levaria horas.

Isso é extraordinário.

Mas cria um efeito colateral:

se ficou fácil produzir, também ficou fácil produzir lixo.

A quantidade de conteúdo disponível tende a crescer muito mais rapidamente do que nossa capacidade de consumi-lo.

Por isso, o valor passa progressivamente da simples produção para outras capacidades:

selecionar.

editar.

curar.

contextualizar.

identificar padrões.

reconhecer qualidade.

saber o que ignorar.

Em um mundo inundado por conteúdo, atenção se torna um recurso ainda mais valioso.


Talvez a pergunta certa seja outra

Em vez de perguntar:

“O que mais eu posso fazer?”

talvez seja melhor perguntar:

“O que eu posso deixar de fazer?”

Depois:

“O que realmente produz resultado?”

E finalmente:

“Como posso dedicar mais energia a isso?”

Essa mudança aparentemente pequena pode transformar completamente a maneira como encaramos trabalho, negócios, criatividade e até aprendizado.

Porque produtividade não é uma competição para ver quem consegue colocar mais coisas na agenda.

Produtividade é conseguir colocar energia suficiente nas coisas certas.


Faça menos. Mas faça melhor.

A Lei de Sturgeon nos lembra que grande parte do que produzimos será apenas mediana.

Pareto nos lembra que nem todas as atividades possuem o mesmo impacto.

Edison nos lembra que descobrir o que funciona frequentemente exige descobrir primeiro o que não funciona.

Juntas, essas ideias apontam para uma conclusão simples:

Não precisamos acertar tudo. Precisamos identificar o que importa, testar, aprender e concentrar nossos esforços no que realmente funciona.

No fim, fazer menos não é necessariamente produzir menos.

É desperdiçar menos.

E talvez essa seja uma das formas mais inteligentes de produzir mais valor.

Marcio Loureiro é formado em Análise de Sistemas e possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Certificado Green Belt e em metodologias ágeis (SaFe, CSM, CSPO, KMP) atua há mais de 26 anos em duas frentes complementares: Na comunicação e tecnologia, como sócio-fundador da PromoDigital e no mercado de entretenimento, onde trabalha com áudio e música como empresário, multi-instrumentista, diretor musical e produtor de artistas de destaque nacional. Já deixou sua marca em projetos de peso para empresas como Coca-Cola, Shell, Petrobras, Governo Federal e Sony Music. Apaixonado por gastronomia, é também um aspirante a chef nas horas vagas.

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